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Archive for April, 2006

Estrada Real: uma viagem possível no espaço-tempo

April 30th, 2006

Einstein certamente não imaginou isto, mas a Estrada Real, uma via, em certa medida, apenas virtual, acaba propiciando uma viagem muito real no tempo, por nos colocar em contato direto com uma extraordinária riqueza histórica. E, conjuntamente, uma viagem também real no espaço, ou, melhor dizendo, em espaços de singular variedade cultural, de belíssimas paisagens e excepcionais atrativos naturais.

Para usufruir de tudo isto, há que encarnar um pouco do espírito dos pioneiros, pois muitas das belezas precisam ser “garimpadas” em meio ao desordenado crescimento das antigas vilas e vilarejos, que, em muitos casos, se transformaram em cidades de grande porte.

Tenho procurado “experimentar” a Estrada Real. Já viajei por vários dos seus trechos (sempre com minha fiel companheira digital). Há pouco, parte da minha família e eu rodamos alguns dias por parte do Circuito dos Inconfidentes. Descobri, já há algum tempo, que a gente não “vai” à Estrada Real, mas a gente sabe que “está” na Estrada Real:

- quando se é recebido, em Congonhas, pelos profetas de Aleijadinho
- quando se depara com alguém montado literalmente em uma “vaca leiteira”, como vimos em São Braz do Suaçuí, próximo à sua bela igreja matriz , que, para ser visitada, precisa ser aberta com uma chave que data de tempos imemoriais pela “guardiã”, que fica na Casa Paroquial, ao lado;
- quando se delicia com o famoso rocambole de Lagoa Dourada;
- quando se conhece Prados e seus fantásticos artistas e artesãos,
- como o Sirlei, que mora e tem seu ateliê no casarão de D. Hipólita (a primeira mulher Inconfidente), ao lado da belíssima Matriz de N.Sra. da Conceição, cujo precioso acervo ele ajuda, voluntariamente, a preservar; ali produz sua fantástica obra de arte, exportada para todo o Brasil, e, ao mesmo tempo, orienta os visitantes quanto às atrações imperdíveis de toda a região e lhes concede horas do seu profundo conhecimento de arte e cultura;
- como o Márcio Julião, com sua arte impensável feita de enormes esculturas em enormes troncos de árvores, de extraordinário vigor e expressão: animais selvagens, totens e uma profusão de outras, que surgem em turbilhão de sua mente magicamente inventiva; com trabalhos similares, há outros, como os Cinco Irmãos Carassa e o Thiago, com sua impressionante carranca de alguns metros de altura;
- se depara com um grupo entusiasmado de cavaleiros, “tropeiros de luxo”, que percorrem, em bandos felizes e barulhentos, trechos – às vezes muito longos – do caminho;
- chega a um lugar chamado “Bichinho”, um vilarejo que, de lugar esquecido no tempo, encontrou um novo destino, sem perder a simplicidade: o de famoso centro de artesanato de alto nível; depois de explorar as inúmeras lojas e ateliês, encantando-se com as “namoradeiras” à janela, não se pode deixar de conhecer a deliciosa Pousada do Mauro, um ex-caminhoneiro, de excelente prosa, que se transformou em um dos mais renomados artesãos da região;
- roda por estradinhas de terra, em meio a bucólicas paisagens, e tem que buzinar para tirar as pachorrentas vacas do caminho;
- chega à Tiradentes do Alferes Joaquim José da Silva Xavier e se inebria de história em suas ladeiras calçadas de pedra, em meio a um preservadíssimo casario colonial, igrejas centenárias, lojas charmosas, antiquários repletos de passado, cafés e bistrôs que nos levam uma Paris de sonhos; uma experiência turística a um só tempo de alta sofisticação, muito charme e simplicidade preservada.

Para fazer o roteiro que fiz, saindo de Belo Horizonte, pegue a BR 040 (BH/RIO) entre em Congonhas e dali siga pela MG-383 em direção a S. João Del Rey. Fizemos nosso ponto de apoio em Prados, no apart hotel Água Limpa, do “gordo simpático” Renato. Instalações excepcionais e um café da manhã esplendoroso, providenciado e servido diretamente no apartamento por ele e sua simpática esposa. Prosa das melhores.

Querendo informações de outros trechos interessantes da Estrada Real, basta contactar-me.

Saiba mais sobre a Estrada Real – história, atrações, hospedagem, eventos – no site oficial do Instituto Estrada Real – http://www.estradareal.org.br/

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Planejar é…

April 21st, 2006

A história é interessante e educativa. Recolhi (e adaptei) do excelente livro Como passar em concursos públicos: guia de leitura rápido – de William Douglas.

Um jovem e vigoroso lenhador conseguiu, em um único dia, derrubar 70 árvores. Ficou feliz (é comovente a falta de consciência ecológica, não?), até que descobriu que o recorde mundial era de 72 árvores em um dia. Decidiu-se, então, a bater esta marca, para entrar no Guinness.

Alguns dias depois, levantou-se mais cedo que de costume. Trabalhou o dia todo, mas… só conseguiu derrubar 68 árvores. Levantou-se mais cedo, no outro dia: 65 árvores. Levantou-se mais cedo ainda e trabalhou até esgotar-se, no dia posterior, mas… só 62 árvores.

Frustrado e confuso, resolveu aconselhar-se com um velho lenhador, já aposentado (menos um para derrubar árvores, graças a Deus!): “Não consigo entender: a cada dia trabalho mais e consigo menos resultado!… O que será que está acontecendo?!”

A sábia resposta veio em forma de uma nova pergunta: “E quanto tempo você gasta afiando o machado?”

Boa lição para nós, brasileiros, pouco dados ao Planejamento. Quanta gente ainda não acha que, reunir-se para planejar, antes de sair fazendo, é pura perda de tempo? “Esse negócio de muita reunião só atrasa! Vamos deixar de blá, blá, blá. Pau na máquina!”

Dá tudo errado, mas os “heróis” não se abalam: “Não tem problema: vamos fazer de novo!” E tome retrabalho e mais retrabalho…

Os japoneses, que, em pouco mais de três décadas se refizeram das cinzas da destruição que lhes foi trazida pela Segunda Guerra Mundial, não transformaram seu destroçado país em uma das maiores potências econômicas mundiais simplesmente “mandando ver!” Sabiamente ensinam: “Faça certo da primeira vez. Para isto, gaste 80% do tempo planejando e 20% do tempo fazendo.”

Assim, podemos concluir que planejar é… afiar o machado. A história do início confirma a lição japonesa. (Quem quiser que conte outra…)

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Da realidade angolana às reflexões sobre a Páscoa

April 13th, 2006

Tenho tido o privilégio de passar parte do meu tempo em Angola, país irmão, recém-saído de quase 30 anos de guerra. Paralelamente ao trabalho, vou registrando, com minha inseparável companheira digital, o que os olhos vêem e o coração enxerga (ou vice-versa).

Com todas as dificuldades, mas consistentemente, o país vem construindo sua passagem de uma pobreza ancestral para um futuro muito mais promissor. Como sempre, a educação é o instrumento e o esforço conjunto de profissionais brasileiros e angolanos, entre os quais tenho a honra de me incluir, vem contribuindo para produzir a transformação.

Páscoa é passagem. Com fé e determinação, Angola constrói a sua, mostrando que é possível ter esperança, a despeito de todas as adversidades. Que nos sirva de estímulo, para que, também com fé, determinação e trabalho, contribuamos todos para construir a passagem para um mundo melhor do que este que temos hoje.

Boa Páscoa!

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Gestão de cidades: desarmando a bomba relógio chamada automóvel – III

April 8th, 2006



(Recomendável ler antes os “capítulos I e II” desta série)

3o. estágio - Desapertem o cinto: o automóvel sumiu!

As medidas sugeridas anteriormente ajudam, mas não vão à raiz do problema. Aumentar a frota de ônibus, por exemplo, significa aumentar os níveis de poluição ambiental e simplesmente substituir o espaço físico atualmente ocupado por automóveis pelos ônibus.

Para ir ao cerne, é preciso responder à seguinte pergunta: Precisamos de veículos automotores tridimensionais ou apenas de sermos transportados de um lugar para outro, do modo mais simples, menos agressivo e menos poluente possível? Na busca das respostas, vamos encontrar soluções que vão das mais banais ao mais alto “delírio tecnológico”. As mais simples: estimular as pessoas a fazerem percursos menores a pé (saudável e barato); estimular o uso de bicicletas, patinetes, etc.

Mas nem tudo se resolverá assim. Grandes contingentes de pessoas precisam ir de um ponto a outro, com rapidez. A tecnologia pode ajudar muito na solução de um problema que ela mesma criou. E se, ao invés de ser suporte para carros, muitas ruas fossem grandes esteiras rolantes, como as dos grandes aeroportos, conduzindo diretamente as pessoas, com cadeiras e cobertura contra sol e chuva? Tais ruas/esteiras poderiam ser movidas por energia solar (com placas coletoras sobre a cobertura) ou por bio-combustíveis; ruas íngremes teriam escadas rolantes ou teleféricos, com cadeirinhas.

A fabricação destas esteiras e teleféricos passaria a ser o novo produto das atuais montadoras de automóveis, que, embora diminuíssem em muito a produção de veículos (usados apenas para passeios de fim de semana e viagens), não teriam razões para demitir seus funcionários. Concessionários de transportes coletivos passariam a explorar este novo meio, abandonando os ônibus. O transporte através destes novos meios poderia custar pouco mais que nada para a população, pois seria subsidiada pelo governo, usando toda a economia feita em obras e no fantástico decréscimo de gastos com doenças respiratórias, nos hospitais públicos.
Loucura? Alucinação? Alguém disse um dia: “Para que precisamos de automóveis, se temos cavalos?” Projetar-se no tempo. Pré-ver. Ter coragem para perguntar por que é assim e se é preciso continuar a ser assim.

Com ousadia, podemos construir soluções que, de fato, devolvam a cidade ao cidadão, garantindo seu direito de ir e vir, com paz e saúde, usando da cidade apenas o espaço que seu próprio corpo ocupa. Que cidade é melhor? Compare as fotos. A da direita é de uma rua real em Hong Kong. As da esquerda são também de ruas reais…

Cidades como Nova York e Hong Kong já não estão só discutindo. Estão agindo. Veja alguns resultados interessantes em http://www.activelivingresources.org/ e www.td.gov.hk/transport_in_hong_kong/pedestrianisation/pedestrianisation/index.htm
Desapertem os cintos: o automóvel sumiu!

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Gestão de cidades: desarmando a bomba relógio chamada automóvel – II

April 3rd, 2006

A questão do transporte individual, especialmente nas grandes cidades e, mais especialmente, nas megalópoles dos países pobres e emergentes, vem tomando feições explosivas. No “cap. I” deste tema, colocamos o problema, agora passamos a apontar possíveis soluções, a serem implementadas por estágios, já que a cultura de uso do automóvel é muito arraigada.

1o. Estágio: todo o poder ao transporte coletivo

Os dados não são rigorosamente precisos, mas servem para ilustrar. São Paulo (aqui tomada como símbolo da falência do paradigma) tem aproximadamente 6 milhões de automóveis, que transportam apenas algo em torno de 10% da população. Os outros 90% se espremem em aproximadamente 300.000 ônibus e no sistema de metrô, que percorre apenas uma pequena parte da cidade. No fundo, os 10% mais privilegiados infernizam a vida dos outros 90%. E todos andam muito mais lentamente do que poderiam.

“É preciso construir novos viadutos e trincheiras!” – bradamos (por falta de visão sistêmica). Mas é importante avaliar o assunto de forma mais abrangente. Faz sentido investir na construção de caríssimos viadutos e túneis, para facilitar, basicamente, a circulação dos veículos de transporte individual? De forma geral, é razoável pensar que recursos públicos devem ser gastos para beneficiar a maioria e não a minoria. E, neste caso, investir em soluções paliativas para desafogar o trânsito é, ainda, jogar recursos fora, porque, em poucos anos, a capacidade de absorção de veículos fica inteiramente anulada (o tamanho das cidades é finito; a produção de automóveis é infinita). Todo investimento público para o transporte público! Dar alternativas limpas, confortáveis e ágeis,para que todos possam se locomover sem precisar de automóveis. Quantidade e qualidade! De preferência, metrôs subterrâneos ou elevados (vide monorail). Usam eletricidade e, por isto, não poluem. Não ocupam o espaço das ruas. São mais baratos que os metrôs de superfície.

Ofertar transporte coletivo decente: eis o primeiro estágio da mudança.

2º. Estágio: para os automóveis, pão e água

Com um sistema de transporte coletivo de qualidade, não há mais motivos reais para o uso do automóvel. Sobrarão apenas os aspectos culturais: status, comodismo, egocentrismo… Como combatê-los?

Hora de dificultar a vida dos que teimarem em: ocupar 6 (ou 10) m2 de rua, aumentar os índices de poluição atmosférica, colocar em risco a vida (sua e dos outros), atravancar o ir e vir dos demais. Algumas das idéias seguintes já são usadas, com sucesso, em várias cidades do mundo: reservar dois terços da faixa de trânsito para os veículos coletivos; cobrar pedágio urbano; multar veículos com apenas uma pessoa; dotar os veículos de chips para cobrança de “taxa de consumo de vias de trânsito” – sistema usado em Cingapura; (não há “cultura” que resista à “hemorragia financeira”); mais e mais ruas exclusivas para pedestres; criar ciclovias e “motovias” em profusão– em algumas cidades da Escandinávia, já é considerado pouco inteligente não andar de bicicleta.

Uma das coisas mais fantásticas da sociedade atual é que as informações circulam tão veloz e facilmente que podemos aprender com os erros dos outros e não repeti-los. As nações pobres ou em desenvolvimento não têm primeiro que se entupir de automóveis (para benefício exclusivo das montadoras multinacionais, que têm seus mercados cada vez mais restringidos nos países desenvolvidos – em Londres, já é proibido oferecer estacionamento no centro da cidade) para depois descobrirem que embarcaram em um paradigma falido.

No próximo capítulo, uma proposta um tanto mais heterodoxa para o problema.

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