É a causa, meu filho!
A “enxugação de gelo” é mais ou menos isto. Colocar um pano de chão na torneira que insiste em pingar – e, a cada cinco minutos, torcer o pano no balde; e a cada vinte minutos, jogar a água do balde fora… e torcer o pano…
Muitas vezes, este processo eterno vem com um sutil “valor agregado” também tupiniquim: o da embromação, da enrolação, do fingir que está sempre fazendo algo importante, coisas que, na verdade, jamais resolverão o problema, mas que garantem o “biquinho” e justificam o pingar eterno… do salário, no fim do mês.
É assim que vejo, “neste país” – como gosta de dizer um colega “palestrante” muito mais conhecido do que eu – muito Merthiolate sendo gasto em ferida crônica, que há meses ou anos não cicatriza. É isto que acontece, por exemplo, quando autoridades alardeiam que colocaram semáforos inteligentes, para controlar o trânsito, não levando em conta que o tamanho das cidades é finito e a produção de carros, infinita, o que, em breve tempo, levará aquele “gelo enxugado” a derreter novamente.
O mesmo acontece quando imprecações são feitas à corrupção, aos trambiques feitos pela classe política, quando, em cada esquina “deste país” (olha ele aí de novo), um novo trambique é feito a cada minuto.
E assim vamos, enxugando gelo: tapando buracos em estradas quase desaparecidas; cortando o sinal dos celulares para que os bandidos não possam falar; dando esmolas institucionalizadas e gratuitas, ao invés de criar oportunidades para que o cidadão ganhe o seu sustento com dignidade, dando alguma forma de contrapartida à sociedade; culpabilizando professores e/ou alunos pelas mazelas da educação ou “dando capacitação atrás de capacitação”, a custos astronômicos, comemorando horas de treinamento, em lugar de resultados; enjaulando cada vez mais presos e nos enjaulando nos condomínios fechados, sem ao menos especular sobre as raízes de tanto medo e tanta violência; repintando prédios pichados e espancando “pivetes”; ficando felizes quando a justificativa que arranjamos para um trabalho mal feito na empresa “cola”; comprando diplomas a prestação, sem o lastro do conhecimento – dar duro nos estudos pra quê?
E assim vamos, enxugando gelo: acreditando piamente que cassando uns, demitindo alguns outros, passando uma descompostura aqui e outra ali, dando uma gorjetinha dacolá, liberando uma verbazinha para reformar os prédios escolares ou comprar uns computadores, tudo haverá de se resolver (quanta fé, meu Deus!). Ou ainda crendo que trocar pessoas, pelo simples ritual de uma eleição a cada quatro anos, vai ser capaz de salvar o país, trazendo a sempre sonhada (e nunca trabalhada) renovação ou, quem sabe, revelando enfim um ‘salvador”.
Combater a febre e não a infecção. Jogar o sofá pela janela, ao encontrar nele a mulher em um tête-a-tête com o melhor amigo. Aproveitar o crédito consignado para cobrir a inadimplência passada. Comprar em “suadas” prestações o carro importado, para mostrar ao vizinho “que eu também posso”. Parecer ser honesto e fazer “gato” na TV a cabo do prédio (“Todo mundo faz!…”). Parecer ser competente e apropriar-se dos louros que deveriam pertencer a outro. Parecer ser rico e perder noites de sono por não saber como pagar as contas (quando não simplesmente diz que “infelizmente, ocorreram uns imprevistos e não tenho condições de pagar”).
Formas e formas de não resolver o problema essencial. De “enxugar gelo” eternamente, não enxergando o paradigma exaurido, a própria incompetência, a esperteza burra ou a insegurança que determina atos aparentemente corajosos.
Desta forma, o rochedo dos nossos problemas – pessoais, organizacionais ou nacionais – jamais descansará no topo da montanha.
Pobre Sísifo tupiniquim: não é o sintoma que precisa ser combatido; é a CAUSA, meu filho!
