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Archive for July, 2006

Educação, Limites e Sociedade: lá como cá, coincidências há (Ô Pá!)

July 19th, 2006

Em meio ao muito joio que se recebe pela Internet, há também muito trigo. Recebi de um amigo (que recebeu de um amigo, que, por sua vez, recebeu de um amigo, que, a seu turno, recebeu de um amigo…) o texto abaixo, produzido em terras d’além mar. Por sua propriedade (quase) universal e pela conexão com os tempos atuais, permiti-me publicá-lo neste espaço, que tenho reservado, em geral, para minhas próprias reflexões. Confira se as semelhanças são meras coincidências.

A escola que temos não exige a muitos jovens qualquer aproveitamento útil ou qualquer respeito da disciplina. Passa o tempo a pôr-lhes pó de talco e a mudar-lhes as fraldas até aos 17 anos. Entretanto mostra-lhes com toda a solicitude que eles não precisam de aprender nada, enquanto a televisão e outros entretenimentos tratam de submetê-los a um processo contínuo de imbecilização.

Se, na adolescência, se habituam a drogar-se, a roubar, a agredir ou a cometer outros crimes, o sistema trata-os com a benignidade que a brandura dos nossos costumes considera adequadas à sua idade e lava-lhes ternurentamente o rabinho com água de colónia. Ficam cientes de que podem fazer tudo o que lhes der na real gana na mais gloriosa das impunidades.

Não são enquadrados por autoridade de nenhuma espécie na família, nem na escola, nem na sociedade, e assim atingem a maioridade. Deixou de haver serviço militar obrigatório, o que também concorre para quecheguem à idade adulta sem qualquer espécie de aprendizagem disciplinada ou de noção cívica. Vão para a universidade mal sabendo ler e escrever e muitas vezes sem sequer conhecerem as quatro operações. Saem dela sem proveito palpável.

Entretanto, habituam-se a passar a noite em discotecas e noutros proficientes locais de aquisição interdisciplinar do conhecimento, até às cinco ou seis da manhã. Como não aprenderam nada digno desse nome e não têm referências identitárias, nem capacidade de elaboração intelectual, nem competência profissional, a sua contribuição visível para o progresso do país consiste no suculento gáudio de colocarem Portugal no fim de todas as tabelas. Capricham em mostrar que o “bom selvagem” afinal existe e é português. A sua capacidade mais desenvolvida orienta-se para coisas como o Rock in Rio ou o futebol. Estas são as modalidades de participação colectiva ao seu alcance e não requerem grande esforço (do qual, aliás, estão dispensados com proficiência desde a instrução primária).

Contam com o extremoso apoio dos pais, absolutamente incapazes de se co-responsabilizarem por uma educação decente, mas sempre prontos a gritar aqui-d’el-rei! contra a escola, o Estado, as empresas, o gato do vizinho, seja o que for, em nome dos intangíveis rebentos.

Mas o futuro é risonho e é por tudo o que antecede que podemos compreender o insubstituível papel de duas figuras como José Mourinho e Luiz Felipe Scolari. Mourinho tem uma imagem de autoridade friamente exercida, de disciplina, de rigor, de exigência, de experiência, de racionalidade, de sentido do risco. Este conjunto de atributos faz ganhar jogos de futebol e forma um bloco duro e cristalino a enredomar a figura do treinador do Chelsea e o seu perfil de*condottiere* implacável, rápido e vitorioso. Aos portugueses não interessa a dureza do seu trabalho, mas o facto de “ser uma máquina” capaz de apostar e ganhar, como se jogasse à roleta russa.

Scolari tem uma imagem de autoridade, mas temperada pela emoção, de eficácia, mas temperada pelo nacional-porreirismo, de experiência, mas temperada pela capacidade de improviso, de exigência, mas temperada pela compreensão afável, de sentido do risco, mas temperado por um realismo muito terra-a-terra. É uma espécie de tio, de parente próximo que veio do Brasil e nos trata bem nas suas rábulas familiares, embora saiba o que quer nos seus objectivos profissionais.

Ora, depois de uns séculos de vida ligada à terra e de mais uns séculos de vida ligada ao mar, chegou a fase de as novas gerações portuguesas viverem ligadas ao ar, não por via da aviação, claro está, mas porque é no ar mais poluído que trazem e utilizam a cabeça e é dele que colhem a identidade, a comprazer-se entre a irresponsabilidade e o espectáculo. E por isso mesmo, Mourinho e Scolari são os novos heróis emblemáticos da nacionalidade, os condutores de homens que arrostam com os grandes e terríficos perigos e praticam ou organizam as grandes façanhas do peito ilustre lusitano. São eles quem faz aquilo que se gosta de ver feito, desde que não se tenha de fazê-lo pessoalmente porque dá muito trabalho. Pensam pelo país, resolvem pelo país, actuam pelo país, ganham pelo país. Daí as explosões de regozijo, as multidões em delírio, as vivências mais profundas, insubordinadas e estridentes, as caras lambuzadas de tinta verde e vermelha dos jovens portugueses. Afinal foi só para o Carnaval que a escola os preparou. Mas não para o dia seguinte.

A cena brasileira, com seu quadro de desorganização social, hedonismo e consumismo desenfreados, de “subversão” da autoridade no ambiente familiar e escolar, da indisciplina crônica e da violência na escola, do desrespeito ao outro e à autoridade, desembocando em crescente “desobediência civil” e corrupção “septicêmica”, está a exigir reflexão e ação urgentes.

Mas lamento informar que a educação NÃO é a solução (como trombeteiam muitos). Pelo menos não esta educação (em letras minúsculas), voltada para as firulas acadêmicas e muito de cultura inútil, meramente “vestibulística”. Esta que faz com que menos de 5% dos alunos cheguem ao final da 4a. série tendo efetivamente aprendido a ler e escrever. Esta que leva as pessoas a pensarem que um diploma comprado a prestação ou através da “cola” vai resolver o problema. Esta que deu diplomas de graduação e pós-graduação aos maiores larápios do país (ou Lalau, Roberto Jeferson e assemelhados são analfabetos?).

O que poderá nos livrar da mediocrização desenfreada e até mesmo do retorno à barbárie (cujos sinais já são evidentes, não apenas pelo vandalismo das periferias, mas especialmente pela criminalidade que se dissemina pela classe média e pelos altos escalões) é uma EDUCAÇÃO com todas as letras maiúsculas. Uma EDUCAÇÃO familiar, em primeiro lugar, baseada em limites e valores, e uma EDUCAÇÃO acadêmica que, além de prover e premiar a competência técnica, se preocupe em FORMAR cidadãos. Mas tudo isto sem cair no erro de apenas ressuscitar um passado de autoritarismo e intimidação, para conseguir resultados.

A questão preocupa a muitos países. Para onde se olha, vê-se que está a ser gestado um quadro cada vez mais negro. Recomendo a leitura do texto “Educação (escolar?) para uma juventude em crise”, que retrata a mesma precupação na Espanha e dá pistas de solução. Veja em http://www.quadrante.com.br/pages/servicos02.asp?id=45&categoria=Familia Ainda há esperança possível, mas é preciso agir (e torcer para que tenhamos chegado a tempo, como diz o autor do texto sugerido).

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Escola e empresas: aprendendo uns com os outros

July 9th, 2006

Competição, dificuldade de captação de novos alunos, evasão, inadimplência: democraticamente, a escola (em especial a particular) compartilha com as empresas problemas muito similares. Ao contrário destas, que vêm buscando incessantemente formas novas de abordar estes antigos problemas, a escola vem repetindo, insistentemente, velhas fórmulas – fazer mais publicidade e “apertar a cobrança” são algumas delas, com pouca ou nenhuma eficácia mais.

Nos aspectos ligados ao “relacionamento com os clientes”, as escolas se atêm às aulas, para os alunos, e às surradas “reuniões de pais” , a que “só comparecem mães”, como dizia o cronista, e nas quais “os que precisavam” nunca aparecem. “Solução”? Queixar-se e… fazer mais reuniões!!

Com o advento das “Universidades Corporativas”, as empresas dão uma demonstração de humildade e inteligência, absorvendo das escolas seu “know how” na área de educação e treinamento. Por que não fazer a Escola o mesmo, absorvendo das empresas seu “know how” de gestão e solução de problemas? Por que não aprender com elas como relacionar-se mais efetivamente com seus clientes, numa relação personalizada e de mútuo respeito? Por que não aprender com elas como estruturar um ambiente tecnológico que facilite o fluxo das informações e um conhecimento mais profundo dos clientes atuais e potenciais, internos e externos, para poder oferecer a eles produtos e serviços “sob medida”?

Para encontrarmos soluções para os nossos problemas e respostas para os nossos desafios, nada melhor que desviar nosso olhar para áreas diferentes da nossa. Quais são, por exemplo, as cinco coisas que mais querem os clientes? Ao invés dos manuais pedagógicos, consultemos “um compêndio de Marketing” (que recomendo vivamente): Como serão as coisas no futuro – Richard Oliver. Diz lá:

Velocidade
Qualidade
Variedade
Assistência
Preço (justo)

Não será o mesmo que nossos pais e alunos querem? Ou será que um pai gosta de esperar duas horas sentado na ante-sala do Diretor, para ser atendido? Ou ficar pendurado 15 minutos no telefone, ouvindo aquela fantástica mensagem: “Aguarde um pouco. Sua ligação é muito importante. Nossa escola é a melhor do mundo…”

Será que nossos alunos gostam da repetição monocórdia, da ausência de novidades, da rotina pétrea dos horários escolares?

Será que alguém gosta de ser passado para outro, para outro e para outro, quando precisa tratar de algum problema?

Será ainda que alguém aceita pagar um preço injusto, ou seja, maior do que o benefício recebido?

E a qualidade? “Qualidade é adequação ao uso”. Será que o modelo educacional que estamos praticando é “adequado ao uso da Sociedade do Conhecimento” ?

Gestão, Inovação e Tecnologia: o que aumenta a competitividade da Empresa pode servir também para a Escola. Se começarmos a fazer as perguntas certas, muito provavelmente encontraremos as respostas de que necessitamos.

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Há exatos 20 anos, em Pequim

July 8th, 2006

Em julho de 1986 – exatos 20 anos atrás – eu estava em Pequim, numa viagem que incluiu também o Japão, a Tailândia e Hong Kong. Era meu último ano no Iraque (onde vivi por cinco anos) e quis aproveitar a distância relativamente pequena para fazer uma viagem por estas paragens exóticas e fascinantes.

Compus, na época, um áudio-visual, com textos e slides (daqueles antigos mesmo, que tirei e adquiri) sobre cada um destes países, contendo minhas emoções e impressões de viagem. Ao longo dos anos, o exibi para muitos alunos, professores e amigos. Agora digitalizado, disponibilizo-o, em forma de CD-Rom (O Planeta Ásia), a quem se interessa (a “preço módico”, acredite -rs).

Ocorreu-me agora reler o texto então por mim escrito sobre a China, país que assombra hoje o mundo, por seu espantoso crescimento e voracidade comercial. Foi um exercício curioso de comparação das percepções e preocupações que eu havia tido, com aquilo que ocorreu ao país, nas duas décadas passadas. Confira alguns trechos.

Fui a Pequim, mas não fui à China, pois a China é muito mais que Pequim e seus arredores. Embora tenha visto muito pouco, atrevo-me a tentar decifrar esta esfinge-país (…) Um fantástico brontossauro começando a despertar, lentamente, de um sono letárgico. Enorme gigante, tão grande e poderoso como os de contos de fadas, tentando levantar-se após a tremenda bebedeira da véspera. Gigantesco mastodonte que, pesada e desajeitadamente, procura libertar-se de imenso poço de areia movediça.

Que imagem será suficientemente forte para ilustrar os desafios dificílimos com que a China se depara? Transformar em energia cinética, em realidade, a fantástica energia potencial que possui; modernizar um país imenso que só há poucos anos despertou para esta necessidade; acompanhar a velocidade de desenvolvimento das grandes potências, mas tendo que puxar, a reboque, um bilhão e duzentos milhões de pessoas. Um bilhão e duzentos milhões de seres humanos para alimentar, matar a sede, vestir, tratar, abrigar, educar, empregar, fazer feliz.
(…)

Levando-se em conta tantas dificuldades, fica mais fácil compreender, pelo menos em parte, a lógica interna do regime político vigente no país. Não se consegue atender, simultaneamente, às necessidades básicas e às necessidades secundárias de um bilhão e duzentos milhões de pessoas. É preciso viver num padrão de extrema austeridade, de despojamento verdadeiramente monástico. É o que se percebe, generalizadamente, no vestuário simplíssimo do povo, no tecido grosseiro dos lençóis, mesmo nos bons hotéis, nos travesseiros enchidos com casca de arroz, na simplicidade das construções, na despreocupação com o acabamento e o visual de qualquer produto industrializado, inclusive com o dos veículos produzidos no país, cujo design antiquado nos faz acreditar que o tempo tenha parado na China nos idos de 1930. (…)

Diante do imenso desafio, é preciso estabelecer prioridades e segui-las rigidamente. É preciso, por quaisquer meios, aproximar o máximo possível de zero a taxa de natalidade. É preciso aplicar proveitosamente cada centavo de moeda forte, proibindo – por exemplo – o gasto de preciosos dólares em viagens turísticas, ainda que isto represente, aos olhos de alguém, um atentado à liberdade de ir e vir. É fundamental preservar o povo do perigo de contágio pelo vírus do consumismo, pois, se os recursos são escassos para o essencial, que dirá para o supérfluo. (…)

Duro e maquiavélico, talvez, mas prático. Prático, talvez, mas não perfeito. Embora, em tese, a lógica pareça adequada, na prática o que se observa é uma flagrante letargia, um concreto imobilismo, uma enervante indolência do povo. Faltam estímulos, perspectivas, desafios, incentivos. É palpável o sentimento generalizado de que, numa sociedade em que o Estado é o patrão, não vale a pena esforçar-se. (…)

Como quebrar estas terríveis correntes que amarram o país? Capitalismo neles! – receitaria alguém, pensando nos inegáveis benefícios do espírito de competição e da livre iniciativa, mas esquecendo-se de que, no caso da China, aplicar ortodoxamente um sistema que privilegia apenas os bem dotados, que concentra nas mãos de ínfima minoria a imensa maioria da riqueza, significaria condenar à miséria absoluta aproximadamente um bilhão de seres humanos, que, embora vivendo em cidades cinzentas, sem luzes de néon, inteiramente privados da possibilidade de adquirir as adoráveis tentações produzidas pela sociedade de consumo, estão providos pelo menos do essencial para que alguém possa ser chamado de ser humano.

Diante do impasse, resta torcer para que dê certo a experiência que começa a ser aplicada em algumas regiões isoladas da China, de um sistema híbrido, meio idealístico, talvez, que poderia ser classificada de Capitalismo socialista ou de Socialismo capitalista, onde se tenta somar os pontos mais positivos dos dois sistemas. (…)

No entanto, do que vi, o que me ficou foi uma enorme curiosidade: conseguirá a China romper as correntes que a prendem? E, se conseguir, como ficará o mundo, a partir do momento em que este gigante despertar inteiramente, resolver seus problemas internos e levantar sua imensa cabeça para olhar em volta?

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Quando se vê hoje o progresso vertiginoso da China, a marcha célere rumo ao capitalismo, o enriquecimento de alguns, o aumento acelerado da desigualdade e a troca das milhões de bicicletas por milhões de carros, deixa-nos perplexos a velocidade da mudança em apenas duas décadas. E mais: a pergunta da última frase do texto passa de curiosidade a preocupação.

Que o herbívoro Brontossauro não se transmude em um temível Tiranossauro Rex.

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Morrer rico é burrice!

July 3rd, 2006

Há muitos anos, ouvi uma entrevista de um grande empresário na área de mineração, com atuação no interior da Bahia (que perdoe minha memória, que agora me trai e não me deixa lembrar seu nome). A entrevista tinha como tema o fato de que ele havia construído e mantinha várias escolas para alunos carentes, inclusive pagando professores e funcionários, somente com seus próprios recursos.

O repórter não entendia porque uma pessoa se dispunha a lançar mão de seus recursos financeiros pessoais para fazer algo que “deveria ser feito pelo poder público”. Ele respondeu mais ou menos assim: “Nasci pobre e consegui, com enorme esforço, construir uma fortuna que me propiciou muitas coisas boas na vida. Mas não vou conseguir levá-la para o túmulo e, se a deixar para a família, vou criar é problema. Nasci pobre e acho que devo morrer pobre. Morrer rico é burrice.”

Aquelas palavras vieram de encontro a algo que já pensava há tempos. Talvez por ter nascido em uma família muito pobre e ter tido que lutar pelo meu próprio sustento e progresso pessoal, nunca entendi bem a questão da herança. Como é que podem pessoas que, muitas vezes, não fizeram nenhum esforço na vida receber, de mão beijada, e sozinhos, um recurso financeiro, seja pequeno ou enorme, acumulado com o suor dos pais, apenas porque com eles têm uma afinidade sangüínea? A riqueza não é fruto apenas do esforço pessoal, mas algo que se constrói a partir das condições dadas pela sociedade. Assim, vejo como absolutamente natural que, pelo menos em parte, estes recursos retornem à sociedade.

Sou, portanto, a favor de uma Lei da Herança, em que, para espólios a partir de determinado valor, 70% do patrimônio volte para a Sociedade e 30% seja repassado aos herdeiros. Se estes não souberem trabalhar para ampliar a parcela que receberam, a próxima geração só receberá 15% da quantia original. Até minguar, se for o caso. Este valor, recolhido ao Estado, teria que ter, obrigatoriamente, uma destinação social. Seria “carimbado”, para não correr o risco de ir parar – como direi? – em indevidas cuecas.

Penso que, além de fazer justiça à sociedade, que é quem viabiliza a existência de grandes fortunas e sofre terrivelmente com a desigualdade, tal medida seria profundamente educativa, evitando que a certeza da herança continue a gerar jovens fracos de vontade, que, muitas vezes, buscam no hedonismo desenfreado e nas drogas a emoção que lhes foi negada, ao se tirar deles o insubstituível prazer da conquista.

Tenho duas filhas e, desde muito cedo, procurei incutir-lhes a idéia de que não contassem com herança, por menor que fosse. E que entendessem que o papel “provedor” dos pais ia até um certo limite: obrigações como afeto, respeito, alimentação, saúde e educação de boa qualidade. Ou, de maneira simplificada, “casa, comida e roupa lavada”, mas somente enquanto não fossem capazes de providenciá-los por sua própria conta. Carro? É conquista pessoal (90% dos brasileiros andam de ônibus). Apartamento? Em país que tem financiamento habitacional, como o nosso, que permite adquirir um apartamento pagando até menos de R$100,00 por mês, não há sentido em que os pais se sacrifiquem eternamente para dar um apartamento para cada filho.

E não me esqueço da profunda emoção da Luciana, a mais velha, quando preencheu um cheque de quase R$3.000,00, fruto da poupança que a estimulamos a fazer, sobre o salário que ganhava do emprego que também a estimulamos a buscar, a partir dos seus 18 anos. Era para dar de entrada no primeiro carro que comprava, um Fiat Uno 97: “Pai, estou tremendo… nunca preenchi um cheque meu com um valor tão grande!”

Em síntese: tiradas as obrigações normais para com os filhos, o que foi conseguido pelos pais deve servir para o seu conforto em vida e para diminuir as desigualdades sociais, de preferência ainda durante a própria vida – até para que possam usufruir do supremo prazer de ver os resultados de sua ação social – ou, na pior das hipóteses, após sua morte. Aos filhos cabe aproveitar as condições favoráveis de saúde e educação que os pais lhes deram para construírem, com competência e legitimidade, seu próprio patrimônio.

Tudo isto me vem à mente quando leio no jornal que o investidor Warrem Buffet, o segundo homem mais rico do mundo, vai doar 85% de sua fortuna de 40 bilhões de dólares para causas filantrópicas. Diz o editor da revista “The Economist”: “Nos EUA, há essa cultura capitalista de “o ganhador leva tudo”. Mas, ao mesmo tempo, há um contrato social tácito, em que os vencedores da sociedade têm de ajudar os perdedores.” Diz mais: “Deixar uma grande herança (…) pode causar uma mal maior para esses herdeiros (…) porque eles podem ficar muito mimados e perderem a noção do valor do dinheiro, da importância de trabalhar…”

E sobre os ricos brasileiros, ele fuzila: “Os ricos do Brasil estão mais assustados com a situação de desigualdade social que seus pares de outros países. Não é por acaso que cresce tanto o número de carros blindados e de helicópteros para escapar da violência.”

Quanta diferença!… Mais uma vez o erro trágico de atacar o sintoma ao invés da causa. No fundo, todos sabemos que será cada vez mais difícil escapar da violência gerada, em grande parte, pelo egoísmo e a desigualdade. Assim, a morte continuará a nos espreitar em cada semáforo. Talvez alguns se contentem em pensar que, se morrerem, terão um enterro de luxo, com direito até a um mausoléu em mármore, no mais sofisticado cemitério da cidade, para matar (outra vez?) de inveja os vizinhos. Por mim, ainda que sem pertencer à “classe”, continuo a acreditar que morrer rico é burrice!

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