* Lúcio Fonseca
Motivado por ampla reportagem no Bom Dia Brasil de hoje – 15/6/2007 – volto a tema sobre o qual me debrucei e venho falando há anos (meus pacientes amigos e inúmeros motoristas de táxi que o testemunhem): a falência do paradigma transporte individual. Parece que agora “a ficha está caindo” para mais gente, graças a Deus.
Resumo aqui os 5 passos que venho propondo, há quase 10 anos. É uma abordagem sistêmica (leia todos, por favor), para propiciar uma guinada suave para outro modelo de transporte, mais racional e muito mais saudável do que este que temos.
O problema, suas causas e perspectivas
* Em 1970 (apenas 37 anos atrás), éramos “90 milhões em ação”; hoje somos 190 milhões! O mundo já chega aos 7 bilhões de seres humanos!
* Há algumas décadas, só ricos possuíam carro; hoje, qualquer assalariado pode tê-lo, pagando em até 72 meses (louvável a diminuição da desigualdade, mas, no caso em tela, o resultado é a construção de uma “bomba-relógio”);
* O Brasil fabrica 2.8 milhões de carros por ano; a China 7 milhões! A Índia…
* Em S. Paulo, rodam hoje 3,5 milhões de veículos por dia; dentro da maioria destas “caixas de 6 a 8 m2”, uma única pessoa); e todo dia, mais 500 automóveis são licenciados (somados a outros veículos, chegam, provavelmente, a 1.000 ou mais…); o automóvel é, cada vez mais fortemente, o sonho de consumo, o objeto de desejo de cada cidadão; dentro de 5, 10, 20 anos, o que ocorrerá?
* A média para engarrafamentos em SP é de 110 km! (e as outras cidades se encaminham “inocentemente” para o mesmo caos…); problema grande para as pessoas que têm carro (a minoria) e maior ainda para os que não o possuem (a imensa maioria);
* Só em S. Paulo se gastam 600 milhões por ano no tratamento de doenças respiratórias; a maioria dos afetados nem têm carro, mas são vítimas da poluição que estes causam, responsável também em 13,5% pelo aquecimento global;
* Trecho da matéria de hoje do Bom Dia Brasil:
Quilômetros de engarrafamento, caos, impaciência. O tempo que os motoristas desperdiçam dentro do carro nas grandes cidades do Brasil. Um custo que chega a bilhões e bilhões de reais.
Uma imagem, na quinta-feira, impressionou moradores de todo o Brasil. Era uma fila que não tinha fim: carros, caminhões, ônibus e motoristas parados, durante horas e horas, na maior cidade do país. Foram 172 quilômetros de engarrafamento – um recorde de desperdício. Quem, dentro do carro, cansado, nunca pensou que poderia estar aproveitando melhor aquele tempo? Quais são as previsões de quem estuda o assunto para os próximos anos? Como vai estar São Paulo em 2050, por exemplo? Não deixe de ver a matéria completa (textos, áudio e vídeo) em http://bomdiabrasil.globo.com/Jornalismo/BDBR/0,,AA1564662-3682-689148,00.html . Uma pena: os especialistas entrevistados não conseguiram ver a questão sistemicamente e se limitaram às opiniões e sugestões mais comuns;
* Conclusão: andar de carro todos os dias, a passeio ou a trabalho, é um prazer (ou obrigação, por falta atualmente de opções) que já foi possível; agora, simplesmente, NÃO É MAIS!’
A solução, em cinco atos
Perdoem-me os Engenheiros de Trânsito, urbanistas e outros profissionais da área a ousadia, mas uso a prerrogativa de “observador de fora” (não tanto “de fora”, por ser causador, em parte, do problema e vítima, no todo) para indicar um caminho a meu ver viável – e necessário – para a solução.
Premissas:
1) a necessidade maior não é ter automóvel, mas transportar-se (de que forma for);
2) mudar a cultura de uso de automóvel é difícil; precisa ser feito em etapas.
ETAPA I: oferecer transporte público, inicialmente via ônibus e vans, de alto nível, em quantidade e ótima qualidade, com preços subsidiados (a economia gerada com controle de trânsito, acidentes, doentes, etc) paga; tira-se assim a desculpa dos donos de carro de usa-lo por falta de opção;
ETAPA II: tirada a desculpa, implantar um programa acelerado de restrição crescente ao uso do automóvel na cidade, até elimina-lo: avenidas inteiras só para transporte público, centro da cidade “fechado” aos carros, pedágio urbano caro, aumento dos impostos para aquisição, criação de “imposto de circulação em via pública” etc;
ETAPA III: já melhorou, mas ônibus e vans são trambolhos e altamente poluentes; hora de investir (inclusive os muitos recursos apurados com a economia já citada, o pedágio urbano etc) no metrô como o novo paradigma de transporte; à proporção que for aumentando a oferta de metrô, ir retirando ônibus e vans de circulação (criar aceleradamente um número cada vez maior de ruas com transporte motorizado proibido);
ETAPA IV: com as ruas livres (inclusive da poluição), dotar todas de ciclovias (para bicicletas e patinetes) e fazer contínuas campanhas educativas, ressaltando os benefícios de andar a pé (mais economia, principalmente no sistema de saúde, pois a população será muito mais saudável); um avanço rumo a novo paradigma de transporte: metrô/bicicleta-patinete/pé;
ETAPA V: como, inapelavelmente, a população vai continuar crescendo (embora devamos repensar esse paradigma também) e, assim, a demanda de transporte, hora de implantar uma solução verdadeiramente heterodoxa: muitas ruas se transformam em grandes esteiras rolantes (como a dos grandes aeroportos); sobre elas são colocadas coberturas e, nelas, células solares, para movê-las com energia natural. Loucura? Muitos dos grandes avanços da humanidade foram classificados assim, de início.
Já tenho resposta para muitos dos possíveis questionamentos a esta proposta (venho refletindo e estudando sobre isto há tempos), mas, certamente, não para todos. O que desejo é poder discutir estas idéias na maior quantidade de foros possível e que todos ajudem a colocá-las em debate, para seu aperfeiçoamento e melhor qualidade de vida de todos nós. A trilogia “Gestão das cidades: a bomba-relógio chamada automóvel”, publicada há tempos neste site, esmiúça a questão. Leia.
Mudar o mundo é menos difícil do que parece. Opine, provoque o debate. Estou à disposição.
* Palestrante e Consultor
educacional e empresarial
lucio@luciofonseca.com.br
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