Há exatos 20 anos, em Pequim

July 8th, 2006

Em julho de 1986 – exatos 20 anos atrás – eu estava em Pequim, numa viagem que incluiu também o Japão, a Tailândia e Hong Kong. Era meu último ano no Iraque (onde vivi por cinco anos) e quis aproveitar a distância relativamente pequena para fazer uma viagem por estas paragens exóticas e fascinantes.

Compus, na época, um áudio-visual, com textos e slides (daqueles antigos mesmo, que tirei e adquiri) sobre cada um destes países, contendo minhas emoções e impressões de viagem. Ao longo dos anos, o exibi para muitos alunos, professores e amigos. Agora digitalizado, disponibilizo-o, em forma de CD-Rom (O Planeta Ásia), a quem se interessa (a “preço módico”, acredite -rs).

Ocorreu-me agora reler o texto então por mim escrito sobre a China, país que assombra hoje o mundo, por seu espantoso crescimento e voracidade comercial. Foi um exercício curioso de comparação das percepções e preocupações que eu havia tido, com aquilo que ocorreu ao país, nas duas décadas passadas. Confira alguns trechos.

Fui a Pequim, mas não fui à China, pois a China é muito mais que Pequim e seus arredores. Embora tenha visto muito pouco, atrevo-me a tentar decifrar esta esfinge-país (…) Um fantástico brontossauro começando a despertar, lentamente, de um sono letárgico. Enorme gigante, tão grande e poderoso como os de contos de fadas, tentando levantar-se após a tremenda bebedeira da véspera. Gigantesco mastodonte que, pesada e desajeitadamente, procura libertar-se de imenso poço de areia movediça.

Que imagem será suficientemente forte para ilustrar os desafios dificílimos com que a China se depara? Transformar em energia cinética, em realidade, a fantástica energia potencial que possui; modernizar um país imenso que só há poucos anos despertou para esta necessidade; acompanhar a velocidade de desenvolvimento das grandes potências, mas tendo que puxar, a reboque, um bilhão e duzentos milhões de pessoas. Um bilhão e duzentos milhões de seres humanos para alimentar, matar a sede, vestir, tratar, abrigar, educar, empregar, fazer feliz.
(…)

Levando-se em conta tantas dificuldades, fica mais fácil compreender, pelo menos em parte, a lógica interna do regime político vigente no país. Não se consegue atender, simultaneamente, às necessidades básicas e às necessidades secundárias de um bilhão e duzentos milhões de pessoas. É preciso viver num padrão de extrema austeridade, de despojamento verdadeiramente monástico. É o que se percebe, generalizadamente, no vestuário simplíssimo do povo, no tecido grosseiro dos lençóis, mesmo nos bons hotéis, nos travesseiros enchidos com casca de arroz, na simplicidade das construções, na despreocupação com o acabamento e o visual de qualquer produto industrializado, inclusive com o dos veículos produzidos no país, cujo design antiquado nos faz acreditar que o tempo tenha parado na China nos idos de 1930. (…)

Diante do imenso desafio, é preciso estabelecer prioridades e segui-las rigidamente. É preciso, por quaisquer meios, aproximar o máximo possível de zero a taxa de natalidade. É preciso aplicar proveitosamente cada centavo de moeda forte, proibindo – por exemplo – o gasto de preciosos dólares em viagens turísticas, ainda que isto represente, aos olhos de alguém, um atentado à liberdade de ir e vir. É fundamental preservar o povo do perigo de contágio pelo vírus do consumismo, pois, se os recursos são escassos para o essencial, que dirá para o supérfluo. (…)

Duro e maquiavélico, talvez, mas prático. Prático, talvez, mas não perfeito. Embora, em tese, a lógica pareça adequada, na prática o que se observa é uma flagrante letargia, um concreto imobilismo, uma enervante indolência do povo. Faltam estímulos, perspectivas, desafios, incentivos. É palpável o sentimento generalizado de que, numa sociedade em que o Estado é o patrão, não vale a pena esforçar-se. (…)

Como quebrar estas terríveis correntes que amarram o país? Capitalismo neles! – receitaria alguém, pensando nos inegáveis benefícios do espírito de competição e da livre iniciativa, mas esquecendo-se de que, no caso da China, aplicar ortodoxamente um sistema que privilegia apenas os bem dotados, que concentra nas mãos de ínfima minoria a imensa maioria da riqueza, significaria condenar à miséria absoluta aproximadamente um bilhão de seres humanos, que, embora vivendo em cidades cinzentas, sem luzes de néon, inteiramente privados da possibilidade de adquirir as adoráveis tentações produzidas pela sociedade de consumo, estão providos pelo menos do essencial para que alguém possa ser chamado de ser humano.

Diante do impasse, resta torcer para que dê certo a experiência que começa a ser aplicada em algumas regiões isoladas da China, de um sistema híbrido, meio idealístico, talvez, que poderia ser classificada de Capitalismo socialista ou de Socialismo capitalista, onde se tenta somar os pontos mais positivos dos dois sistemas. (…)

No entanto, do que vi, o que me ficou foi uma enorme curiosidade: conseguirá a China romper as correntes que a prendem? E, se conseguir, como ficará o mundo, a partir do momento em que este gigante despertar inteiramente, resolver seus problemas internos e levantar sua imensa cabeça para olhar em volta?

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Quando se vê hoje o progresso vertiginoso da China, a marcha célere rumo ao capitalismo, o enriquecimento de alguns, o aumento acelerado da desigualdade e a troca das milhões de bicicletas por milhões de carros, deixa-nos perplexos a velocidade da mudança em apenas duas décadas. E mais: a pergunta da última frase do texto passa de curiosidade a preocupação.

Que o herbívoro Brontossauro não se transmude em um temível Tiranossauro Rex.

Lúcio Fonseca Artigos

Morrer rico é burrice!

July 3rd, 2006

Há muitos anos, ouvi uma entrevista de um grande empresário na área de mineração, com atuação no interior da Bahia (que perdoe minha memória, que agora me trai e não me deixa lembrar seu nome). A entrevista tinha como tema o fato de que ele havia construído e mantinha várias escolas para alunos carentes, inclusive pagando professores e funcionários, somente com seus próprios recursos.

O repórter não entendia porque uma pessoa se dispunha a lançar mão de seus recursos financeiros pessoais para fazer algo que “deveria ser feito pelo poder público”. Ele respondeu mais ou menos assim: “Nasci pobre e consegui, com enorme esforço, construir uma fortuna que me propiciou muitas coisas boas na vida. Mas não vou conseguir levá-la para o túmulo e, se a deixar para a família, vou criar é problema. Nasci pobre e acho que devo morrer pobre. Morrer rico é burrice.”

Aquelas palavras vieram de encontro a algo que já pensava há tempos. Talvez por ter nascido em uma família muito pobre e ter tido que lutar pelo meu próprio sustento e progresso pessoal, nunca entendi bem a questão da herança. Como é que podem pessoas que, muitas vezes, não fizeram nenhum esforço na vida receber, de mão beijada, e sozinhos, um recurso financeiro, seja pequeno ou enorme, acumulado com o suor dos pais, apenas porque com eles têm uma afinidade sangüínea? A riqueza não é fruto apenas do esforço pessoal, mas algo que se constrói a partir das condições dadas pela sociedade. Assim, vejo como absolutamente natural que, pelo menos em parte, estes recursos retornem à sociedade.

Sou, portanto, a favor de uma Lei da Herança, em que, para espólios a partir de determinado valor, 70% do patrimônio volte para a Sociedade e 30% seja repassado aos herdeiros. Se estes não souberem trabalhar para ampliar a parcela que receberam, a próxima geração só receberá 15% da quantia original. Até minguar, se for o caso. Este valor, recolhido ao Estado, teria que ter, obrigatoriamente, uma destinação social. Seria “carimbado”, para não correr o risco de ir parar – como direi? – em indevidas cuecas.

Penso que, além de fazer justiça à sociedade, que é quem viabiliza a existência de grandes fortunas e sofre terrivelmente com a desigualdade, tal medida seria profundamente educativa, evitando que a certeza da herança continue a gerar jovens fracos de vontade, que, muitas vezes, buscam no hedonismo desenfreado e nas drogas a emoção que lhes foi negada, ao se tirar deles o insubstituível prazer da conquista.

Tenho duas filhas e, desde muito cedo, procurei incutir-lhes a idéia de que não contassem com herança, por menor que fosse. E que entendessem que o papel “provedor” dos pais ia até um certo limite: obrigações como afeto, respeito, alimentação, saúde e educação de boa qualidade. Ou, de maneira simplificada, “casa, comida e roupa lavada”, mas somente enquanto não fossem capazes de providenciá-los por sua própria conta. Carro? É conquista pessoal (90% dos brasileiros andam de ônibus). Apartamento? Em país que tem financiamento habitacional, como o nosso, que permite adquirir um apartamento pagando até menos de R$100,00 por mês, não há sentido em que os pais se sacrifiquem eternamente para dar um apartamento para cada filho.

E não me esqueço da profunda emoção da Luciana, a mais velha, quando preencheu um cheque de quase R$3.000,00, fruto da poupança que a estimulamos a fazer, sobre o salário que ganhava do emprego que também a estimulamos a buscar, a partir dos seus 18 anos. Era para dar de entrada no primeiro carro que comprava, um Fiat Uno 97: “Pai, estou tremendo… nunca preenchi um cheque meu com um valor tão grande!”

Em síntese: tiradas as obrigações normais para com os filhos, o que foi conseguido pelos pais deve servir para o seu conforto em vida e para diminuir as desigualdades sociais, de preferência ainda durante a própria vida – até para que possam usufruir do supremo prazer de ver os resultados de sua ação social – ou, na pior das hipóteses, após sua morte. Aos filhos cabe aproveitar as condições favoráveis de saúde e educação que os pais lhes deram para construírem, com competência e legitimidade, seu próprio patrimônio.

Tudo isto me vem à mente quando leio no jornal que o investidor Warrem Buffet, o segundo homem mais rico do mundo, vai doar 85% de sua fortuna de 40 bilhões de dólares para causas filantrópicas. Diz o editor da revista “The Economist”: “Nos EUA, há essa cultura capitalista de “o ganhador leva tudo”. Mas, ao mesmo tempo, há um contrato social tácito, em que os vencedores da sociedade têm de ajudar os perdedores.” Diz mais: “Deixar uma grande herança (…) pode causar uma mal maior para esses herdeiros (…) porque eles podem ficar muito mimados e perderem a noção do valor do dinheiro, da importância de trabalhar…”

E sobre os ricos brasileiros, ele fuzila: “Os ricos do Brasil estão mais assustados com a situação de desigualdade social que seus pares de outros países. Não é por acaso que cresce tanto o número de carros blindados e de helicópteros para escapar da violência.”

Quanta diferença!… Mais uma vez o erro trágico de atacar o sintoma ao invés da causa. No fundo, todos sabemos que será cada vez mais difícil escapar da violência gerada, em grande parte, pelo egoísmo e a desigualdade. Assim, a morte continuará a nos espreitar em cada semáforo. Talvez alguns se contentem em pensar que, se morrerem, terão um enterro de luxo, com direito até a um mausoléu em mármore, no mais sofisticado cemitério da cidade, para matar (outra vez?) de inveja os vizinhos. Por mim, ainda que sem pertencer à “classe”, continuo a acreditar que morrer rico é burrice!

Lúcio Fonseca Artigos

É a causa, meu filho!

June 6th, 2006

“Enxugar gelo” é uma das expressões semanticamente mais felizes que conheço. Poderia ser considerada a versão tupiniquim do mitológico Suplício de Sísifo. Condenado a empurrar um imenso rochedo montanha acima, o pobre coitado, todas as vezes em que quase chegava ao topo, via seu inaudito esforço literalmente rolar ladeira abaixo, tendo que começar tudo de novo, pelos séculos dos séculos.

A “enxugação de gelo” é mais ou menos isto. Colocar um pano de chão na torneira que insiste em pingar – e, a cada cinco minutos, torcer o pano no balde; e a cada vinte minutos, jogar a água do balde fora… e torcer o pano…

Muitas vezes, este processo eterno vem com um sutil “valor agregado” também tupiniquim: o da embromação, da enrolação, do fingir que está sempre fazendo algo importante, coisas que, na verdade, jamais resolverão o problema, mas que garantem o “biquinho” e justificam o pingar eterno… do salário, no fim do mês.

É assim que vejo, “neste país” – como gosta de dizer um colega “palestrante” muito mais conhecido do que eu – muito Merthiolate sendo gasto em ferida crônica, que há meses ou anos não cicatriza. É isto que acontece, por exemplo, quando autoridades alardeiam que colocaram semáforos inteligentes, para controlar o trânsito, não levando em conta que o tamanho das cidades é finito e a produção de carros, infinita, o que, em breve tempo, levará aquele “gelo enxugado” a derreter novamente.

O mesmo acontece quando imprecações são feitas à corrupção, aos trambiques feitos pela classe política, quando, em cada esquina “deste país” (olha ele aí de novo), um novo trambique é feito a cada minuto.

E assim vamos, enxugando gelo: tapando buracos em estradas quase desaparecidas; cortando o sinal dos celulares para que os bandidos não possam falar; dando esmolas institucionalizadas e gratuitas, ao invés de criar oportunidades para que o cidadão ganhe o seu sustento com dignidade, dando alguma forma de contrapartida à sociedade; culpabilizando professores e/ou alunos pelas mazelas da educação ou “dando capacitação atrás de capacitação”, a custos astronômicos, comemorando horas de treinamento, em lugar de resultados; enjaulando cada vez mais presos e nos enjaulando nos condomínios fechados, sem ao menos especular sobre as raízes de tanto medo e tanta violência; repintando prédios pichados e espancando “pivetes”; ficando felizes quando a justificativa que arranjamos para um trabalho mal feito na empresa “cola”; comprando diplomas a prestação, sem o lastro do conhecimento – dar duro nos estudos pra quê?

E assim vamos, enxugando gelo: acreditando piamente que cassando uns, demitindo alguns outros, passando uma descompostura aqui e outra ali, dando uma gorjetinha dacolá, liberando uma verbazinha para reformar os prédios escolares ou comprar uns computadores, tudo haverá de se resolver (quanta fé, meu Deus!). Ou ainda crendo que trocar pessoas, pelo simples ritual de uma eleição a cada quatro anos, vai ser capaz de salvar o país, trazendo a sempre sonhada (e nunca trabalhada) renovação ou, quem sabe, revelando enfim um ‘salvador”.

Combater a febre e não a infecção. Jogar o sofá pela janela, ao encontrar nele a mulher em um tête-a-tête com o melhor amigo. Aproveitar o crédito consignado para cobrir a inadimplência passada. Comprar em “suadas” prestações o carro importado, para mostrar ao vizinho “que eu também posso”. Parecer ser honesto e fazer “gato” na TV a cabo do prédio (“Todo mundo faz!…”). Parecer ser competente e apropriar-se dos louros que deveriam pertencer a outro. Parecer ser rico e perder noites de sono por não saber como pagar as contas (quando não simplesmente diz que “infelizmente, ocorreram uns imprevistos e não tenho condições de pagar”).

Formas e formas de não resolver o problema essencial. De “enxugar gelo” eternamente, não enxergando o paradigma exaurido, a própria incompetência, a esperteza burra ou a insegurança que determina atos aparentemente corajosos.

Desta forma, o rochedo dos nossos problemas – pessoais, organizacionais ou nacionais – jamais descansará no topo da montanha.

Pobre Sísifo tupiniquim: não é o sintoma que precisa ser combatido; é a CAUSA, meu filho!

Lúcio Fonseca Artigos

Gestão pública: definindo o Norte para uma nau sem rumo

May 29th, 2006

Estamos vivenciando um momento trágico/especial no país. Trágico pela exposição de vísceras. Especial pela oportunidade. Talvez agora “caia a ficha” e se faça a luz: “Assim não dá!”

Esta aparentemente singela expressão de sublevação para com o status quo foi, na verdade, a responsável – sempre que irrompeu – por dramáticas e históricas transformações. Deve ter sido dita por Einstein, algum tempo antes de resolver provar que, no universo, tudo é relativo. Pelo populacho, antes de acender o rastilho da Revolução Francesa. Pelos universitários também franceses, antes de pintarem de tintas revolucionárias a Primavera de Paris.

Não esperem, no entanto, neste texto, conclamação irada à revolta ou imprecações “contra tudo isto que está aí”. Meu “Assim não dá!” não se refere especificamente a um governo ou a uma situação. Refere-se a mais um paradigma que precisa ser revisto, com criatividade e ousadia. O que está errado é o sistema. É ele que, entre outras coisas, permite que as pessoas errem tanto e que o país “erre” tanto (no sentido de andar errante).

O problema

Desde que descoberto, nosso país é uma imensa nau a singrar os mares da vida, simplesmente ao sabor do vento. Nenhuma carta de navegação o orienta, nenhum plano de viagem o conduz. Uma nau sem rumo, que, a cada quatro anos, troca o Capitão e/ou a tripulação, ocupando-se estes tão-somente com as questões internas do navio – como é mesmo que isso aqui funciona? – quem limpa o convés? como dividir a ração alimentícia, garantindo, por exemplo, que a menor parte fique com a maior parte)? cardápios do dia (diferenciados por “classe”), punição a (ou negociação com) revoltosos; como manter os postos obtidos, indefinidamente, ou pelo menos pelos próximos 4 anos? como não ser atirado aos tubarões (ainda que tenha ferido as normas)? qual o rumo a seguir amanhã… de manhã?… uma fazeção que até faz pensar que haja competência, mas sem nenhuma objetividade ou preocupação de definir claramente a que porto se destina o navio. (Imagine isto acontecendo em uma empresa…).

O Ministro Furlan explodiu, há algum tempo, em plena viagem à longínqua China: “O Brasil não tem projeto!”

É – dirão alguns – democracia é assim mesmo… as coisas são lentas…

Há tempos venho refletindo sobre democracia e modelos políticos. Eleições são consideradas momentos mágicos de “depuração nacional”. Um dos pilares do conceito de democracia é a “alternância no poder” . Este é um paradigma. Vemos a alternância no poder como uma “conquista inalienável”, “cláusula pétrea” da democracia. E, por isto, não refletimos sobre seus efeitos colaterais, às vezes muito mais fortes e predatórios do que os benefícios trazidos pelo modelo.

Teoricamente, faz sentido: a cada 4 anos, um segmento ideológico da sociedade tem a oportunidade de assumir o poder e colocar em ação sua “visão político/administrativa”, seu “projeto de governo”. Ao longo do tempo, teríamos um belo “mosaico de contribuições”.

Esqueçamos que a maioria só tem “projeto de poder”. Esqueçamos que muitos são incompetentes ou mal intencionados. Partamos do pressuposto de que todos os que pretendem assumir o poder são patriotas, altamente inteligentes e absolutamente honestos (não ria, por favor; o assunto é sério).

Mesmo que assim fosse, nada estaria resolvido: a cada 4 anos, a roda é reinventada; mudança total de equipe e de curso; meses para se familiarizar com a “máquina administrativa”; o “inteligente de plantão” decide que os rumos do país estão errados e que “agora o caminho é por aqui”; mais 4 anos e o outro diz “agora é para lá”; e o outro: “não, é para acolá”. Leis da física dizem que forças contrárias tendem a se anular. Alguma dúvida sobre por que não saímos do lugar?

Mas, se não for assim, não teremos uma democracia! – a prisão ao paradigma leva logo a este raciocínio. Apressados diriam: será que esse camarada vai defender a necessidade de uma ditadura?

Estabelecendo o rumo e levando a que seja seguido

Tenha calma. . . A resposta à pergunta acima é SIM! Mas (respire fundo) não se trata de uma “ditadura de pessoa”, mas uma “ditadura de projeto”. Com eleições, alternância no poder e tudo a que uma verdadeira democracia tem direito.

Explico: defendo a idéia de que a uma grande assembléia (200 ou 300 pessoas), constituída em parte de deputados e senadores e em parte por brasileiros de notório saber – empresários éticos e bem sucedidos, reitores das Universidades, especialistas de instituições como FGV, parte dos integrantes do atual Conselho de Desenvolvimento Nacional e outros talentos, reconhecidos nacionalmente – seja dada a incumbência de produzir um “projeto para o país”, um verdadeiro “Planejamento Estratégico”, como o das grandes empresas (afinal, o país é também uma grande empresa, por mais arrepios que este conceito possa causar em alguns; uma empresa cujos acionistas são o povo – e não Deputados, Senadores, Presidentes, Governadores e Prefeitos, como sempre parece ser).

Na discussão, haverá, certamente, o momento de perguntar: qual é a vocação do Brasil? Será que podemos ser bons em tudo? Ou seria melhor definirmos nossa vocação natural – alimentação, turismo e biocombustíveis, talvez ? Para estas áreas, seria direcionado o maior percentual de investimento. Inclusive nas pré – condições para o seu êxito: Educação, Pesquisa, Saúde, Infraestrutura, etc. Para as demais, uma “verba de manutenção” – ou nada (há coisas que devemos mesmo é adquirir lá fora, não precisamos reinventar rodas).

Estabelecido o projeto, com todos os componentes bem definidos – a visão , a missão, objetivos, metas decenais, metas anuais, etc. – que venham as eleições. Todos podem candidatar-se, mas não para colocarem em ação “o seu projeto de governo”, mas para serem “gestores do projeto do país”, comprometendo-se com o cumprimento das metas NELE estabelecidas.

Durante a campanha, podem prometer o que quiserem: “Além de cumprir as metas do Plano Estratégico Nacional, ainda farei isto, mais aquilo e mais aquiloutro…” Nada disso lhes será cobrado, mas, quanto às metas do Plano Estratégico Nacional, a coisa é diferente.

Final do primeiro ano do mandato: uma comissão “plenipotenciária” (um TCU turbinado), com uma “listinha de metas” na mão, se reúne com o gestor (democraticamente eleito):

- “Pois não, Sr. Fulano, hora da prestação de contas; comecemos da meta anual de Educação – diminuir em 10% o índice de analfabetismo…”

“- Bem, Sr Sicrano, sabe como é, né?, a conjuntura econômica…”

“-Não, não precisa dar explicações, Sr. Fulano. Estou só anotando que esta não deu. E a de Saúde?”

Ao final da listinha de 10 (?) metas: ” - Bem, Sr. Fulano, o Sr. cumpriu somente 6 das 10 metas; não há problema: o Sr. vai para o 2o. ano do mandato devendo estas 4; ou seja, no ano que vem tem que cumprir as 10 normais do ano e mais estas 4″. (Qualquer semelhança com a “dependência”, praticada no meio educacional, é mera intenção).

Final do 2o. ano de mandato. Comissão começa a conferir a lista. Desculpas começam, mas nem terminam. O gestor está demitido, por incompetência gerencial. Convocam-se novas eleições (o segundo que entrar já vai ter clareza de que o negócio é sério).

A idéia é que o modelo se replique nos 3 níveis: federal, estadual e municipal, com as metas sendo integradas: as do Município estão conectadas com as do Estado e estas com as do País.

Solução completa e acabada?

Certamente não. Há muitos detalhes a discutir e complementar, obviamente, na idéia. Eu mesmo tenho vários dos aspectos abordados um pouco mais detalhados. Acredito que ter um Planejamento Estratégico é “condicial inicial” para qualquer empreendimento e que, se não for cobrado, vira “letra morta” (sem Planejamento Estratégico, nem o crime organizado seria eficiente). No mínimo, há que tentar algo novo. Ou alguém tem ilusão, nas próximas eleições, de que “desta vez vamos!”?

Muitos dirão: “Ah, o pessoal lá de cima não vai aceitar isto não. Vão perder poder e a boquinha”. Então, pergunto: de quem é o país? Deles ou nosso? O Brasil é nosso! Mas o terceirizamos. Não delegamos para nossos representantes: “delargamos”. E há séculos vimos pagando por isto, assistindo, impotentes, ao revezamento de grupos desnorteados, quando não apenas ocupados em se servir do país (ao invés de servi-lo).

A sociedade organizada, sem guerra e sem sangue, mas com inteligência e persistência, usando os próprios mecanismos constitucionais, como a Emenda Popular, há de encontrar o “como” para colocar em marcha a mudança deste paradigma. Primeiro precisa se convencer de que o paradigma atual está esgotado, que um país sem planejamento estratégico é uma nau sem rumo, que pode até dar em um bom porto, por sorte, mas que corre mesmo é grande risco de se arrebentar em desconhecidos rochedos. Depois, na discussão e burilamento da idéia, haveremos de encontrar o COMO colocá-la em prática.

Em tempo

Uma das missões que me atribuí, neste minifúndio digital, é deitar luz sobre vários dos paradigmas que nos aprisionam, como camisas de força mentais. Não apenas denunciando, mas contribuindo com alternativas propositalmente heterodoxas – não é fazendo apenas variações em torno da mesmice que vamos sair das atribulações em que brasileiros e humanos nos metemos.

Pretendo ser apenas a “isca de iogurte” que vai fermentar o debate e a posterior ação. Debatamos. Discutamos. Arregacemos as mangas e… melhoremos o mundo.

Lúcio Fonseca Artigos

Gestão da Segurança Pública: buscando respostas novas para um problema antigo

May 18th, 2006

“É preciso agir com mão firme!” “Com bandido não se negocia!” “É preciso ter leis mais duras!” “Pena de morte!”

Diante dos fatos recentes em S. Paulo, nada mais natural que a Sociedade reaja “visceralmente”. Diante de uma ameaça iminente ou real, não dá mesmo para, candidamente, buscar o diálogo, a compreensão, as soluções de longo prazo. É preciso estancar a sangria, apagar o incêndio.

No entanto, reações “viscerais”, emergenciais, são como analgésicos: até aliviam a dor, no momento, mas não impedem que ela volte, às vezes muito mais forte. Constituem o que se convencionou chamar de “curto caminho longo”: os resultados imediatos se desvanecem também quase que imediatamente, requerendo maiores e maiores esforços e recursos a cada vez.

O caso, por exemplo, das rebeliões em prisões é elucidativo: se combater a violência com a violência fosse efetivo, o massacre do Carandiru teria eliminado, para sempre, qualquer intenção de presos de se rebelarem. Pelo contrário, a cada rebelião, o indíce de ousadia e barbárie só aumenta.

Neste espaço, tenho procurado contribuir, questionando paradigmas. Temos que sair das “prisões mentais”e nos dar liberdade de pensar em soluções inusitadas, que, certamente parecerão estapafúrdias ou simplistas, de início. A idéia de fundo é: “se continuarmos fazendo o que estamos fazendo, vamos obter o que temos obtido”.

Para o caso da segurança pública, ouso colocar um embrião de reflexão/proposta (o que cabe em um artigo que não pretende ser exaustivo, em ambos os sentidos), na certeza de que poderá provocar reações até indignadas. Assumo as conseqüências. O que peço apenas é que o leitor tente se “descolar” um pouco do momento e das premissas atuais de convivência em sociedade e, pelo menos, leia/escute e conceda-me um minuto que seja de reflexão sobre minha argumentação. A idéia é suscitar o debate e a busca de novas soluções (já que as velhas não mais solucionam). Estas idéias não discutem a questão da violência como um todo – fica de fora, por exemplo, a questão da causalidade externa do fenômeno criminal (má distribuição de renda, exclusão social, esgarçamento do tecido social, família, etc). O escopo aqui é estrito: como lidar com quem já foi preso, para evitar a reincidência e recuperá-lo definitivamente.

REPENSANDO A MISSÃO DO SISTEMA PRISIONAL: O “LONGO CAMINHO CURTO”
Toda a teoria e a boa prática da Gestão da Qualidade aponta para a maior eficácia de ações sintonizadas com o conceito de “longo caminho curto”: gastar bastante tempo no planejamento e em ações de base, de forma a obter resultados consistentes e sustentáveis.

Dada a deterioração dos padrões de vida e convivência nas cidades, o apelo consumista, o consumo crescente de drogas pelas classes mais abastadas, a corrupção desenfreada nos altos, médios e baixos escalões da sociedade e mais um punhado de fatores, a criminalidade e a violência explodiram. E também o número de presidiários, que superlotam as precárias dependências prisionais. Onde cabem 40, estão 200. Onde cabem 200, estão 700. E assim por diante. Rodízio para deitar e dormir, a cada uma ou duas horas. Violência, estupro, morte. Tráfico. Venda de proteção. Penas já cumpridas que se estendem eternamente.Inferno.

“Bem feito!” – diriam os mais indignados (e também minha finada avozinha). E assim se espalha a idéia de que bandido tem que ser tratado é “no porrete”, tem que “comer o pão que o diabo amassou”, para pagar pelo que fez.

Será esta mesmo a MISSÃO do sistema prisional: infligir a maior quantidade de sofrimento possível àqueles que ousaram ferir a sociedade? Acho que precisamos avançar neste conceito baseado na lei do “Olho por olho, dente por dente”, dando um passo atrás, ou seja, resgatando a função inicial e mais profunda do sistema prisional: ressocializar, dar condições para que a pessoa, após um tempo apartada da sociedade, possa com ela voltar a conviver, de maneira sadia. E o castigo? O castigo já é a própria privação da liberdade, um dos bens mais caros a qualquer indivíduo. Nenhuma outra forma de punição é necessária.

Para que, de fato, a cadeia seja um lugar de recuperação e ressocialização, é preciso, ao meu ver, “reconstruí-la” sobre novas bases: ajustes no Código Civil, “moradia” digna, trabalho, esporte e educação.

Ajustes no Código Civil: todos são iguais perante a lei

Uma primeira providência, que pode ajudar em muito a debelar o sentimento de profunda injustiça, na sociedade, e desencorajar crimes como o do “colarinho branco”, é a eliminação do conceito de “prisão especial para quem tem curso superior”. Numa análise “visceral”, vejo-me tentado a pensar que aquele que gastou o dinheiro público para se “educar” e usou desta prerrogativa para causar o mal a muitos, deveria ir para a escala mais baixa do sistema prisional. Mas não receitarei um remédio em que não acredito, mas apenas que se aplique o princípio de que todos são iguais perante a lei, com um adendo: “e também quado infringem a lei”.

Cada cadeia um ambiente digno de morar
Experimente um zoológico juntar todos os animais – pacíficos e agressivos – em uma só jaula, para “economizar custos”. É assim que temos feito com todos os que transgridem as regras sociais. São enjaulados aos montes, nas piores condições. Réus primários, secundários e terciários, junto com “pós-doutores” do crime, sendo sodomizados, achacados, aterrorizados, sem dormir, sem ter onde fazer suas necessidades, amontoados em fétidas prisões que dariam engulhos em carrascos da idade média.

Não se trata aqui de reavivar o discurso dos “direitos humanos”, mas de pensar pragmaticamente em por onde se inicia um projeto de ressocialização, que interessa a toda a sociedade. Será impossível ter, em todas as cadeias, acomodações para 1, 2 , 3 ou 4 detentos, no máximo, com espaço individual minimamente razoável? Nada de mordomia, só uma forma de permitir que se sintam gente e não “lenha amontoada”. Haveria que se construir mais cadeias, mas, associada às demais, esta providência poderia contribuir para um talvez surpreendente “retorno sobre o investimento”.

Cada cadeia uma fábrica ou escritório: o papel ressocializador do trabalho

“Mente ociosa é oficina do diabo”. Como esperar alguma coisa de bom de pessoas que ficam 24 horas por dia, 30 dias por mês, 365 dias por ano, por anos a fio, absolutamente ociosas e submetidas a condições infinitamente inferiores às dos animais em um zoológico? Não há como ser diferente: o pior do ser humano irá aflorar e a “besta-fera” será alimentada dia a dia, pronta para arrancar o fígado do primeiro que lhe cruzar o caminho, quando estiver em liberdade.

Poderia ser diferente, se cada preso fosse considerado um “funcionário da sociedade”, trabalhando remuneradamente 8 horas por dia (com direito e estímulo para fazer mais duas horas extras), numa jornada de 48 horas semanais, chegando ao final do dia “morto de cansado”, sem ânimo para muita estripulia (como, aliás, acontece com a maior parte de nós, trabalhadores).

Pelo trabalho, o preso receberia de um a três salários mínimos (conforme o mérito), podendo, assim, amparar sua família e/ou constituir um “fundo de reserva” para quando fosse colocado em liberdade. Todos começariam por um salário mínimo, mas haveria um “Plano de Carreira”, para estimular o indivíduo a ser melhor a cada dia. Além do salário, o preso poderia ter também uma participação nas vendas de seu produto/serviço.

Absurdo pagar a um preso? De maneira alguma, especialmente em um país que gasta bilhões com esmola a seus cidadãos, dando-lhes vários tipos de bolsa, sem exigir nenhuma contrapartida em contribuição à sociedade. Além de ocupar a mente e cansar o corpo, o trabalho tem aqui uma função primordial: resgatar a dignidade e qualificar para a reinserção no mercado de trabalho e na sociedade.

Mas, e os que não quiserem trabalhar? Depois de um tempo minimamente razoável de conscientização, a opção para estes é o isolamento: celas pequenas (mas dignas), sem nenhum contato com os demais e com o exterior, até que apareça, de repente, “uma vontade enorme de trabalhar” (“Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás” … ou melhor: “Hay que enternecer pero sin perder la dureza jamás” …).

Cada cadeia um ambiente de aprendizagem e reeducação

Após a dura jornada de trabalho, uma hora para banho e jantar, e vem o “curso noturno”. Nada de escola convencional. Pelo circuito interno de TV, à guisa de entretenimento, uma programação educativo/cultural, montada de forma consciente e profissionalmente pedagógica, constituída de filmes que explorem o melhor do ser humano e de atividades que despertem a sensibilidade adormecida por anos de convivência com o “dark side”.

No tempo de confinamento prisional, uma das perdas para o indivíduo será o contato com os meios de comunicação abertos – TV, rádio, jornais – (pelo menos por um tempo significativo). O noticiário ali veiculado é, em muitos casos, motivo de reforço para as ações criminosas, pelo prestígio e exposição que conferem ao criminoso. Será um tempo de “clausura”, de recolhimento e reflexão, um tempo de contrabalançar as altas doses de exposição à violência com altas doses de exposição à sensibilidade, à civilização e à cultura.

“Gulag!!!” – bradarão alguns. “Lavagem cerebral!!! – gritarão outros. Será que o que oferecemos hoje aos detentos é mais digno e melhor do que isto? Será que os indivíduos que retornam hoje à sociedade após cumprirem pena no ambiente pré-medieval descrito no início, voltam recuperados, “quietinhos” e jurando “nunca mais fazer nada errado”?

Para que tal projeto de reeducação vingue (no bom sentido), é preciso um pacto social, um acordo prévio com o sistema judiciário e os vários segmentos da sociedade organizada, para que se construa um consenso de que os tempos mudaram e que há necessidade de uma abordagem não ortodoxa do tema.

Esporte: gastando energia e fazendo campeões

Nas noites de sábado, aos domingos e como opção às outras atividades educativas, esporte, muito esporte. Dirigido profissionalmente, com o objetivo de qualificar os que tiverem pendor e/ou quiserem, para se profissionalizarem. Uma oportunidade de brilhar e gerar futura renda, da forma mais positiva.

Concluindo

Simplista? Quais as idéias “complexas” que estão dando certo? Não factível? Especialistas no assunto – coisa que não sou – podem partir deste embrião e melhorá-lo, para que se torne factível.

Impossível mudar o status quo? Já existem várias experiências exitosas de reeducação de presos no Brasil. Vejam trecho extraído de artigo sobre o Projeto APAC, de Itaúna – MG:

De novembro de 1995 a julho de 2003, contabilizavam-se 88 fugasde presos, com o retorno de 71 deles, sendo seis de forma espontânea. Não houve rebeliões ou motins nos últimos seis anos e as estatísticas realizadas desde 2000 apontam uma reincidência de menos de 8%, bem abaixo da média do sistema carcerário brasileiro, que se situa entre 65% e 85%. O custo de cada reeducando na Apac de Itaúna
é de R$ 343,69; e no sistema convencional é de R$ 1.200,00

Vale a pena ler todo o artigo em http://inovando.fgvsp.br/conteudo/documentos/historias2003/humanizacao%20pena%20privativa.pdf

Minha proposta é mais uma contribuição ao debate e à busca de novas soluções. Da forma A ou B, vamos recuperar todos? Não. Mas se conseguirmos com 30% ou 50%, já não terá valido o investimento?

E os incorrigíveis? Não sou ingênuo o bastante para achar que Fernandinhos Beira Mar e Marcolas vão ser recuperados. Para eles, confinamento do primeiro ao último dia de pena. É uma pena, mas…

Lúcio Fonseca Artigos

Gestão integrada: há algo de novo no front da educação brasileira

May 14th, 2006


Imagine, em uma cidade qualquer, de pequeno ou grande porte, todos os atores da cena educacional – Secretário(a) de Educação, Diretores, Professores e os próprios estudantes – trabalhando juntos por um único objetivo: levar TODOS os alunos a obterem altos níveis de aprendizagem. Sonho? Não.

Nos sistemas públicos de ensino de cidades tão diferentes quanto S. José dos Campos-SP (em uma das mais ricas regiões do Brasil) e Carbonita-MG (em pleno Vale do Jequitinhonha), o fantasma da má qualidade da educação vem sendo exorcizado, de forma extremamente eficaz. O milagre tem nome: SGISistema de Gestão Integrado, uma metodologia de gestão que integra sistemicamente os esforços de todos os envolvidos na lida educacional, de modo a concentrar toda a energia do sistema educacional no alvo “alto desempenho dos alunos”.

Em síntese, funciona assim: com o apoio de consultoria especializada, a Secretaria de Educação define sua Visão, Missão, Finalidade e Metas relacionadas à aprendizagem; em processo estruturado e também acompanhado pela consultoria, estes elementos são desdobrados, primeiramente para cada escola (através dos diretores), para as salas de aula (através dos professores) e, o que é mais bonito: em poucos meses, cada aluno está elaborando sua Visão e Missão como estudante e suas próprias metas de aprendizagem, tornando-se “gestor” do seu próprio processo de aprendizagem.

Os resultados são os mais auspiciosos: Funilândia, uma cidadezinha de pouco mais de 3.000 habitantes, na região central de Minas Gerais, foi a campeã estadual nos testes padronizados de Matemática, aplicados pela Secretaria de Educação; Ouro Branco-MG e S. José dos Campos acabam de receber prêmio nacional de qualidade na educação. E, como estes, há vários outros exemplos. Outro aspecto interessante: aos poucos, estas cidades vão-se transformando no que chamo de “pólos de turismo pedagógico”, recebendo continuamente delegações de educadores e prefeitos de outras cidades e estados para saber “o que, afinal, anda acontecendo aqui”. (Na foto, educadores e Secretários de Educação visitam Funilândia-MG).

Por ter usufruído por vários anos, como Diretor de escola, dos benefícios e resultados desta metodologia de gestão, tenho contribuído prazerosamente na sua divulgação, junto a Prefeituras, Secretarias de Educação e instituições privadas de ensino . Se quiser mais informações, é só mandar-me um e-mail: lucio@luciofonseca.com.br

Lúcio Fonseca Artigos

Gestão integrada da educação em Ouro Branco – MG: pouco tempo, muito resultado.

May 5th, 2006


Outro dia, fui dar uma palestra para Secretários de Educação associados à UNDIME. Acompanharam-me duas Diretoras de escolas públicas de Ouro Branco-MG: a Prof. Magda, de uma escola urbana, e a Prof. Lourdes, da zona rural, que deram um depoimento tocante sobre o processo de transformação que o sistema de educação daquela cidade está vivenciando.

A paixão que demonstraram, o brilho nos olhos com que falaram de seus avanços na implantação do Sistema de Gestão Integrado (vide post sobre Gestão Integrada), as fotos que mostraram e os casos que contaram, sobre mudanças vísiveis na postura e comportamento dos alunos, tanto no contexto urbano quanto no rural, deixaram claro que, apenas sete meses após o início do processo de implantação (que dura 2 anos), já se podem contabilizar resultados admiráveis.

A implantação do SGI em Ouro Branco é fruto da persistência e visão da Secretária de Educação, Prof. Maria Cláudia Bastos, uma notável educadora, com estofo para galgar muitas posições no cenário educacional brasileiro. Com seu jeito todo especial, “doutrinou” o Pe. Rogério, Prefeito Municipal, que abraçou de corpo e alma o projeto. Convenceu ainda a direção da Gerdau-Açominas a patrocinar parte da implantação. Mobilizando toda a comunidade, está fazendo mudanças que ficarão na história daquela comunidade. Não foi sem razão que recebeu, recentemente, em nome do município, um prêmio nacional, como destaque na qualidade da educação. (Na foto, a Secretária Maria Cláudia, no lançamento oficial do SGI e outros projetos educacionais, em agosto de 2005).

Lúcio Fonseca Artigos

Gestão do Turismo: avanços e desafios do Projeto Estrada Real

May 1st, 2006

A gestão do turismo é ciência complexa. Além de envolver aspectos profundamente técnicos, lida com variáveis educacionais, sociais, culturais e de comunicação muito desafiadoras.

Várias vezes já ouvi: “A Estrada Real é muito mal sinalizada; a gente não consegue encontrar…”

No sentido literal, é impossível mesmo, pois a Estrada Real em si é, nos dias atuais, apenas um conceito. Por sobre os antigos caminhos que a constituíam, estenderam-se cidades, propriedades particulares, estradas diversas. O que se busca, neste que é o maior projeto turístico em andamento no Brasil, é jogar luz sobre as centenárias cidades cujos núcleos históricos são contemporâneos dos ciclos do ouro e dos diamantes, com seus casarios coloniais e igrejas ricas em ouro e arte barroca. A idéia é resgatar tradições, revelar singularidades, preservar modos de ser e viver, valorizar a arte e o artesanato, dar a conhecer e a saborear a riquíssima gastronomia, desvelar encantos naturais.

Para quem não sabe, a área de influência da Estrada Real se define ao longo de três “caminhos”, que surgiram da oficialização de antigas vias utilizadas por bandeirantes, tropeiros e aventureiros de toda ordem. O primeiro, conhecido por “caminho antigo”, vai de Paraty a Ouro Preto; era por ali que o ouro, descoberto em profusão nas Minas Gerais, era escoado para Portugal. Por ser muito longo, foi substituído por outro mais curto, do Rio de Janeiro a Ouro Preto. Com este, a viagem, em lombo de burro, cavalos e carroças, encurtou para “apenas” algo em torno de dois meses. Posteriormente, com a descoberta das fantásticas minas de diamantes no antigo Arraial do Tejuco, hoje Diamantina, surge a ligação entre esta cidade e Ouro Preto.

No total, são 1.400 km de jornada, divididos em vários “circuitos”: do Ouro e dos Diamantes, dos Inconfidentes, das Águas, das Vilas e Fazendas, etc, etc. Só quem percorre estes caminhos pode imaginar os extraordinários desafios com que se defrontava esta brava gente brasileira, portuguesa e africana: um mar… de montanhas; florestas impenetráveis, animais selvagens, salteadores… nada de uma pousadinha charmosa, um belo hotel ou um convidativo restaurante servindo uma comidinha mineira no capricho, que hoje se encontra, em grande número, quase por todo o percurso.

O Instituto Estrada Real – IER, uma iniciativa da Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG), com forte apoio do Ministério do Turismo, vem fazendo um trabalho digno de nota (e, muitas vezes, pouco conhecido ou pouco compreendido) para transformar o projeto em realidade. Muitos avanços já foram feitos – levantamentos, programas de qualificação de mão de obra, programas de certificação da produção voltada para o turismo, etc – e muito há ainda para fazer – ao longo de grande parte da Estrada Real, já foram colocados marcos oficiais, para sinalizar seu antigo traçado, mas encontrar, por exemplo, algumas das atrações listadas no próprio site do IER é uma aventura extra, por total falta de sinalização. A população e as autoridades de muitas das cidades ainda não descobriram que o novo Ciclo do Ouro para elas é o turismo. E ficam esperando que o governo estadual e o governo federal ou alguma entidade superior lhes dê tudo de mão beijada. Levantar seus atrativos e colocar umas plaquinhas de indicação – de madeira rústica, que seja – é algo que a própria comunidade pode e deve fazer. As que fazem já estão na frente. E quem vai na frente bebe água limpa.

Por falar em água limpa, talvez este seja o maior desafio. O índice de cidades que jogam seu esgoto diretamente nos rios é alarmante e faz muito arriscado o sonho de um refrescante banho de cachoeira. Algumas cidades já descobriram que cuidar da qualidade de suas águas, investir no saneamento básico e cuidar do seu lixo é investimento que pode gerar até mesmo receita, conforme ensinou-me o Sr. Juca, brilhante ex-Prefeito de Catas Altas, um homem de 74 anos e extraordinária visão, que ensina a quem quiser como obter empréstimos dos órgãos governamentais para projetos na área sanitária e receber anualmente, em créditos de ICMS, mais do que paga pelo empréstimo. Mas não nos iludamos: a melhora da qualidade das águas só virá com o esforço cooperativo e integrado de todas as cidades de uma mesma bacia hidrográfica, pois basta que uma apenas não trate seu esgoto antes de jogá-lo no rio para que as águas de todas as cidades abaixo estejam poluídas.

A melhoria da qualidade das águas e das condições sanitárias, no entanto, não deve ser vista como uma “estratégia para atrair turistas”. O turismo, na verdade, pode ser o bom pretexto para melhorar a vida de quem mora nas cidades, pois a cidade só será boa para o turista se for, antes disso, boa para os seus próprios cidadãos.
Lúcio Fonseca – lucio@luciofonseca.com.br

Lúcio Fonseca Artigos

Estrada Real: uma viagem possível no espaço-tempo

April 30th, 2006

Einstein certamente não imaginou isto, mas a Estrada Real, uma via, em certa medida, apenas virtual, acaba propiciando uma viagem muito real no tempo, por nos colocar em contato direto com uma extraordinária riqueza histórica. E, conjuntamente, uma viagem também real no espaço, ou, melhor dizendo, em espaços de singular variedade cultural, de belíssimas paisagens e excepcionais atrativos naturais.

Para usufruir de tudo isto, há que encarnar um pouco do espírito dos pioneiros, pois muitas das belezas precisam ser “garimpadas” em meio ao desordenado crescimento das antigas vilas e vilarejos, que, em muitos casos, se transformaram em cidades de grande porte.

Tenho procurado “experimentar” a Estrada Real. Já viajei por vários dos seus trechos (sempre com minha fiel companheira digital). Há pouco, parte da minha família e eu rodamos alguns dias por parte do Circuito dos Inconfidentes. Descobri, já há algum tempo, que a gente não “vai” à Estrada Real, mas a gente sabe que “está” na Estrada Real:

- quando se é recebido, em Congonhas, pelos profetas de Aleijadinho
- quando se depara com alguém montado literalmente em uma “vaca leiteira”, como vimos em São Braz do Suaçuí, próximo à sua bela igreja matriz , que, para ser visitada, precisa ser aberta com uma chave que data de tempos imemoriais pela “guardiã”, que fica na Casa Paroquial, ao lado;
- quando se delicia com o famoso rocambole de Lagoa Dourada;
- quando se conhece Prados e seus fantásticos artistas e artesãos,
- como o Sirlei, que mora e tem seu ateliê no casarão de D. Hipólita (a primeira mulher Inconfidente), ao lado da belíssima Matriz de N.Sra. da Conceição, cujo precioso acervo ele ajuda, voluntariamente, a preservar; ali produz sua fantástica obra de arte, exportada para todo o Brasil, e, ao mesmo tempo, orienta os visitantes quanto às atrações imperdíveis de toda a região e lhes concede horas do seu profundo conhecimento de arte e cultura;
- como o Márcio Julião, com sua arte impensável feita de enormes esculturas em enormes troncos de árvores, de extraordinário vigor e expressão: animais selvagens, totens e uma profusão de outras, que surgem em turbilhão de sua mente magicamente inventiva; com trabalhos similares, há outros, como os Cinco Irmãos Carassa e o Thiago, com sua impressionante carranca de alguns metros de altura;
- se depara com um grupo entusiasmado de cavaleiros, “tropeiros de luxo”, que percorrem, em bandos felizes e barulhentos, trechos – às vezes muito longos – do caminho;
- chega a um lugar chamado “Bichinho”, um vilarejo que, de lugar esquecido no tempo, encontrou um novo destino, sem perder a simplicidade: o de famoso centro de artesanato de alto nível; depois de explorar as inúmeras lojas e ateliês, encantando-se com as “namoradeiras” à janela, não se pode deixar de conhecer a deliciosa Pousada do Mauro, um ex-caminhoneiro, de excelente prosa, que se transformou em um dos mais renomados artesãos da região;
- roda por estradinhas de terra, em meio a bucólicas paisagens, e tem que buzinar para tirar as pachorrentas vacas do caminho;
- chega à Tiradentes do Alferes Joaquim José da Silva Xavier e se inebria de história em suas ladeiras calçadas de pedra, em meio a um preservadíssimo casario colonial, igrejas centenárias, lojas charmosas, antiquários repletos de passado, cafés e bistrôs que nos levam uma Paris de sonhos; uma experiência turística a um só tempo de alta sofisticação, muito charme e simplicidade preservada.

Para fazer o roteiro que fiz, saindo de Belo Horizonte, pegue a BR 040 (BH/RIO) entre em Congonhas e dali siga pela MG-383 em direção a S. João Del Rey. Fizemos nosso ponto de apoio em Prados, no apart hotel Água Limpa, do “gordo simpático” Renato. Instalações excepcionais e um café da manhã esplendoroso, providenciado e servido diretamente no apartamento por ele e sua simpática esposa. Prosa das melhores.

Querendo informações de outros trechos interessantes da Estrada Real, basta contactar-me.

Saiba mais sobre a Estrada Real – história, atrações, hospedagem, eventos – no site oficial do Instituto Estrada Real – http://www.estradareal.org.br/

Lúcio Fonseca Artigos

Planejar é…

April 21st, 2006

A história é interessante e educativa. Recolhi (e adaptei) do excelente livro Como passar em concursos públicos: guia de leitura rápido – de William Douglas.

Um jovem e vigoroso lenhador conseguiu, em um único dia, derrubar 70 árvores. Ficou feliz (é comovente a falta de consciência ecológica, não?), até que descobriu que o recorde mundial era de 72 árvores em um dia. Decidiu-se, então, a bater esta marca, para entrar no Guinness.

Alguns dias depois, levantou-se mais cedo que de costume. Trabalhou o dia todo, mas… só conseguiu derrubar 68 árvores. Levantou-se mais cedo, no outro dia: 65 árvores. Levantou-se mais cedo ainda e trabalhou até esgotar-se, no dia posterior, mas… só 62 árvores.

Frustrado e confuso, resolveu aconselhar-se com um velho lenhador, já aposentado (menos um para derrubar árvores, graças a Deus!): “Não consigo entender: a cada dia trabalho mais e consigo menos resultado!… O que será que está acontecendo?!”

A sábia resposta veio em forma de uma nova pergunta: “E quanto tempo você gasta afiando o machado?”

Boa lição para nós, brasileiros, pouco dados ao Planejamento. Quanta gente ainda não acha que, reunir-se para planejar, antes de sair fazendo, é pura perda de tempo? “Esse negócio de muita reunião só atrasa! Vamos deixar de blá, blá, blá. Pau na máquina!”

Dá tudo errado, mas os “heróis” não se abalam: “Não tem problema: vamos fazer de novo!” E tome retrabalho e mais retrabalho…

Os japoneses, que, em pouco mais de três décadas se refizeram das cinzas da destruição que lhes foi trazida pela Segunda Guerra Mundial, não transformaram seu destroçado país em uma das maiores potências econômicas mundiais simplesmente “mandando ver!” Sabiamente ensinam: “Faça certo da primeira vez. Para isto, gaste 80% do tempo planejando e 20% do tempo fazendo.”

Assim, podemos concluir que planejar é… afiar o machado. A história do início confirma a lição japonesa. (Quem quiser que conte outra…)

Lúcio Fonseca Artigos